Continuação...
SC* Nesse livro você fez um trabalho de reflexão da aceitação social da obesidade, onde não se enquadra com os modelos de saúde e beleza. Com isso você fez levantamentos bibliográficos muito ricos. Como foi essa escolha?
RA*A idéia de aceitação social é a base da minha discussão no livro. Como o corpo, suas marcas e símbolos podem ajudar ou atrapalhar na nossa aceitação social plena? Como em qualquer cultura, vai se elegendo o que é o natural, o bonito, o correto, o “normal”. Quando estamos crescendo, vamos aprendendo tudo isso, a identificar o magro como bonito, o heterossexual como o normal, etc. Todos nós sabemos identificar esses modelos hegemônicos. No entanto, a diferença está justamente no grau de reflexão dos indivíduos sobre esses fenômenos culturais. O senso comum não reflete, ele reproduz o que está posto como o culturalmente correto. Por que obesos são desqualificados para arrumar um emprego? Porque as pessoas não olham o currículo do individuo, mas sim sua compleição física e o resto não importa. Então, não houve uma reflexão sobre o fato, mas somente uma reprodução da cultura. É isso que tento mostrar no livro, que para se alterar nossa consciência totalmente permeada de modelos culturais é preciso antes se colocar no lugar do outro e vê-lo nos seus próprios valores e não a partir de padrões que só discriminam os indivíduos. Em relação à bibliografia, quando se faz um trabalho desse porte, você precisa estudar e refletir sobre tudo, desde livros de qualquer área de estudo que fale sobre o tema até reportagens na televisão. A base teórica desse estudo foi Goffman com o conceito de estigma e autores que discutem o conceito de identidade.
SC* E sobre estereótipos e Lipofobia que você aborda bastante. Como foi essa pesquisa?
RA*A era da lipofobia já vem algum tempo sendo discutida por alguns autores pelo mundo afora. O medo cultural exagerado da gordura e tudo que ela acarreta motiva indivíduos a realizarem todo tipo de procedimento para não sair ou ainda para se enquadrarem no modelo posto como o bonito ou o normal. Os estereótipos são construídos socialmente e internalizados mentalmente pelas pessoas. O estereótipo da mulher com silicone que os programas de televisão enaltecem faz com que milhares de outras mulheres anônimas corram para realizar também sua cirurgia e em alguns casos pagar em até 24 vezes sem juros. Procuro mostrar muito no livro os estereótipos negativos em relação à obesidade, ou seja, a diferença em relação ao que é posto com natural. Os estigmas acarretam isso. O estigma do excesso de gordura cria uma gama de estereótipos e, consequentemente, uma gama de expressões que visam depreciar as pessoas, como gordão, rolha de poço, preguiçoso, glutão, etc. É só prestar atenção nas piadas do dia a dia que ficamos rindo ou ainda nos programas de televisão e filmes. Percebam que o preconceito em relação ao corpo é muito sutil, parem para prestar atenção nas falas do cotidiano e poderão observar esse fato.
SC* Você fala sobre o antes da cirurgia: o dogma em torno do obeso severo e o pós cirurgia: a reconstrução da identidade. O que as pessoas podem esperar do livro?
RA*Mostrando o antes e o depois, o gordo e o magro, pude fazer várias constatações, essa é a idéia de se fazer ciência. A referência social determinada pela gordura desaparece porque agora você é magro. A reconstrução da identidade vem diretamente ligada à reconstrução do corpo. Então, é lógico afirmar que o corpo produz identidade social, os indivíduos são identificados e categorizados com base em aspectos corporais. Essa é uma constatação científica. Os leitores podem esperar uma leitura sociológica fiel à realidade social, já que as análises partem de entrevistas com pessoas reais, com os dramas reais de suas vidas e muitos dos leitores verão que muita gente pelo mundo passou ou passa pelas mesmas situações sociais que eles. Podem esperar também uma linguagem clara, sem aqueles chatos hermetismos sociológicos extremamente teóricos.
SC* Tem algum trecho do livro que goste mais?
RA*Eu gosto de todo o livro, na verdade sou suspeito para falar. Eu poderia dizer das partes que mais me emocionam que são os relatos dos capitulo 3 e 4, que são os capítulos que tratam diretamente do antes e depois do emagrecimento via gastroplastia. Essas partes me emocionam por dois motivos: O primeiro é que vejo que realmente consegui analisar, dentro do que foi proposto, os dramas reais das mulheres entrevistadas. O segundo porque recebo relatos de leitores e leitoras de todo o Brasil dizendo que se viam ali nas falas colocadas o livro. Isso para um sociólogo é fantástico, pois mostra que a pesquisa conseguiu captar a realidade social e atingir outras pessoas em outros lugares que viveram os mesmos dramas.
SC* Tem algum tema que foi mais difícil abordar?
RA*Algum tema não. O mais difícil para mim foi realizar recorte empírico, porque estava vendo que muita coisa ficaria de fora. Mas, como já disse, tive de enxugar a proposta de análise porque uma dissertação de mestrado exige isso. Na verdade, deixei muita coisa para pesquisar na tese de doutorado, como: a comparação entre homens e mulheres via gastroplastia; comparação do emagrecimento via gastroplastia com outros tipos de tratamentos; comparação com serviço particular de obesidade com serviço público; dentre muitos outros estudos.
SC* Tem algum recado para seus leitores e futuros leitores. Referente ao que encontraram e o que vão encontrar?
RA*Eu te respondo colocando um trecho de um e-mail que recebi de uma amiga e leitora do livro: “O valor de seu livro não se mede, nem se encontra apenas na época de sua criação. Ele se perpetua entre os tempos. Quando você desenvolve a cultura, multiplica o espaço para opiniões que refletem sobre os problemas da sociedade. O autor não é obrigado a mudar a consciência das pessoas e sim fazer da sua obra um instrumento para reflexões embrionárias da transformação comportamental do indivíduo”. Ela conseguiu captar fielmente o que sinto e o que pretendo em relação a este livro, que os leitores utilizem as análises para pensar a sua própria prática social, já que o tema abordado transcende a questão da obesidade e atinge todos aqueles que são vitimas de preconceito e discriminação, e isso só ocorre porque a sociedade elege modelos que ficamos presos neles porque não refletimos sobre eles, rimos das piadas, criticamos quem está fora de um padrão, ficamos curiosos com o diferente, deixamos que o estigma e seus estereótipos negativos tomem conta de nós sem lembrar que chegará um dia em que nós seremos os estigmatizados. Por isso que “só se transforma a consciência quando alteramos a forma de olhar o outro”.
SC*Considerações finais...
RA*Quero agradecer demais Silmara seu contato e seu carinho. E dizer que estou feliz por poder compartilhar um pouco das minhas idéias e análises com seus leitores e leitoras. Para finalizar, deixo um trecho de um texto de José Luis Pardo que está no inicio do capítulo 3 e que sintetiza o nível de reflexão que pretendo atingir com o livro:
“Respeitar a diferença não pode significar deixar que o outro seja como eu sou ou deixar que o outro seja diferente de mim tal como eu sou diferente (do outro), mas deixar que o outro seja como eu não sou, deixar que ele seja esse outro que não pode ser eu, que eu não posso ser, que não pode ser um (outro) eu; significa deixar que o outro seja diferente, deixar ser uma diferença que não seja, em absoluto, diferença entre duas identidades, mas diferença da identidade, deixar ser uma outridade que não é outra “relativamente a mim” ou “relativamente ao mesmo”, mas que é absolutamente diferente, sem relação alguma com a identidade ou com a mesmidade”.
Fim...
Bom, gostaria de agradecer a disponibilidade do autor em responder as minhas perguntas, lembrando que essas perguntas são dúvidas de todos, pois foi um misto de todas as perguntas que recebi em meu email.
Bom... estarei sempre presente porém um pouco distante, pois todos sabem que estou trabalhando e estudando muito, mais não vou deixar de responder aos emails... Obs: deixem de vergonha e publiquem seu comentário aqui no blog ao invés de mandarem pro meu email.
Bom amanhã retorno. passarei o local onde você spoderão comprar o livro...
Beijos!!!